Além das formas de degradação, como a retirada de matas ciliares e o assoreamento, o Rio São Francisco sofre efeitos de uma “ação invisível” e que acaba com as nascentes e provoca a drástica redução do seu volume: a exploração descontrolada de águas subterrâneas na bacia, por meio da abertura de poços tubulares, que abastecem lavouras irrigadas. O problema atinge o aquífero Urucuia, um dos principais responsáveis pelo volume de água do Velho Chico. A ameaça foi relatada pelo presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF), Anivaldo de Miranda Pinto, durante o II Simpósio da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, em Aracaju (SE), às vésperas do Dia Mundial do Meio Ambiente, comemorado hoje.

 

Aberto domingo à noite, o evento – promovido pelo CBHSF em parceria com a Universidade Federal de Sergipe (UFSE) – prossegue até amanhã, reunindo especialistas, professores e pesquisadores de universidades, com o objetivo de discutir e apresentar estudos voltados para as soluções dos problemas ambientais ao longo da bacia, que nasce na Serra da Canastra, no Centro-Oeste de Minas Gerais, e percorre 2.800 quilômetros até chegar ao Oceano Atlântico, atingido uma população de 18 milhões de pessoas, moradoras de 505 municípios de seis estados (MG, BA, GO, SE, PE, e AL) e do Distrito Federal. O tema central do encontro é “Desafios da Ciência para um novo Velho Chico”. Domingo, dia 3, foi o Dia Nacional de Defesa do Rio São Francisco e também foi lançada na capital sergipana a campanha de mobilização comunitária “Eu viro carranca para defender o Velho Chico”.

aquífero Urucuia está localizado no Cerrado, numa área total de 120 quilômetros quadrados, da qual entre 75 e 80% se concentra no Oeste da Bahia, com de trechos nos estados do Tocantins, Goiás, Piauí, Maranhão e Noroeste de Minas. O Urucuia tem importância na regularização da vazão dos rios que nascem na região e que correm na direção do Velho Chico, sendo fundamentais para o abastecimento de cidades. Gerais: Milhares de pessoas se uniram neste sábado para proteger a Serra da Moeda 

De acordo com Anivaldo Miranda, devido a “exploração desordenada de águas subterrâneas”, houve uma queda acentuada do chamado “escoamento de base da vazão do Rio São Francisco, ou seja, do volume de água que surge das nascentes e garante a manutenção do nível do rio no período da seca – de abril a outubro. Ele disse que a questão ainda depende de estudos, mas há indicativos de que o “escoamento de base” do Velho Chico sofreu uma redução, medida a partir do reservatório da Usina Hidrelétrica de Sobradinho (BA), que pode ter uma grande variação. “Alguns especialistas falam que a queda foi de 100 metros cúbicos (m3) por segundo. Outros afirmam que foi de 400 m3 por segundo, considerando todo os afluentes da bacia”, assinala.

O presidente do CBHSF afirma ainda que a bacia do Rio São Francisco sofre as consequências da exploração de águas subterrâneas para a expansão da fronteira agrícola na região do aquífero Urucuia, especialmente no Oeste da Bahia, onde avançam as plantações irrigadas de soja, milho, feijão e outras culturas. “Não temos nada contra (o agronegócio). É necessário ampliar a produção agrícola, mas precisa ser feito de maneira sustentável. A pressão sob o aquífero está preocupando todo mundo”, alerta.

ESTUDOS CIENTÍFICOS Miranda lembra que a exploração exagerada de águas do subsolo é um problema complexo, pois o levantamento de informações e as medias de controle dependem de estudos científicos. “Em relação às águas superficiais, podemos medir as vazões existentes. Dentro do plano de gestão de qualquer bacia, podermos detectar o potencial de águas da superfície. Mas no aquífero não tem possibilidade de aferir isso (a quantidade de água disponível visualmente)”, frisou. Outro fator complicador é a abertura de poços tubulares clandestinos, cujo combate depende do reforço da fiscalização dos órgãos ambientais.

Ele informou que já estão em andamento pesquisas para avaliar o impacto da exploração de águas subterrâneas para a agricultura irrigada, bem como sobre a redução do lençol freático e os reflexos para a Bacia do Velho Chico. Segundo Miranda, foram iniciados estudos pela Agência Nacional de Águas (ANA). A pedido da Associação dos Irrigantes do Oeste da Bahia, a questão também é objeto de estudos da Universidade Federal de Viçosa (UV) e de uma instituição estrangeira. Além disso, o CBHSF pretende contratar levantamentos a respeito da situação.

 

“A ANA vem fazendo estudos em profundidade, que ainda estão em andamento. Ainda não existem afirmações conclusivas. Mas, há evidências concretas de que a vazão do escoamento de base (nascentes do Rio São Francisco) está em processo declínio”, observa o presidente do CBHSF. “Esse é um assunto que só a ciência pode resolver, para nos dizer que exatamente está acontecendo de fato. As universidades podem nos ajudar com pesquisas, que venham contribuir para que seja estabelecido o uso equilibrado das águas subterrâneas.” *O repórter viajou a convite do Comitê da  Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco (CBHSF)

 

Problema em outras regiões


Anivaldo de Miranda Pinto, presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, salienta que o problema da retirada descontrola de água do subsolo afeta outras áreas do rio. Uma delas é a região do aquífero Bambuí, que vai do Cerrado ao semiárido, sobretudo, no Norte do estados. Sua área natural de recarga alcança uma superfície de mais de 180 mil quilômetros quadrados em Minas, Bahia, Goiás e Tocantins. O presidente do CBHSF disse também que a abertura descontrolada de poços tubulares atinge duramente o Rio Grande, um dos principais afluentes da bacia, que nasce na cidade de Bocaiuva e deságua no São Francisco no trecho do município de Malhada (BA). “Em função da superexploração de águas subterrâneas na região, o Verde Grande vem dando sinais de crise”, ressalta o ambientalista. Em 2017, Verde Grande ficou totalmente seco, no trecho a partir do município de Jaíba, no Norte do estado.

Ainda segundo o presidente do CBHSF, no município de Lapão, no interior da Bahia, região do Rio Jacaré – támbém na bacia do Velho Chico –, os efeitos da exploração desenfreada de águas subterrâneas são tão severos que, diante do rebaixamento do lençol freático, as consequências estão sendo sentidas na superfície, com o surgimento de fendas no chão e rachaduras nas paredes das casas, além do desaparecimento de nascentes. O Comitê da Bacia Hidrográfica do Velho Chico, em parceria com a Prefeitura de Lapão, vai encomendar estudo geológico da região, para avaliar o fenômeno.

Fonte: em.com.br

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